A Vida da Outra
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A TPM não é de Deus! Vejam bem: O tempo hoje está gostosinho, assim, assim... Um outono fajuto mormacento como só nos cafundó de nossa boa, novinha e atrasada América do Sul.


Crianças brincam, Galego, o cão, mostra sua bravura, latindo, rosnando; a roupa está limpa, fiz um feijão com coentro tão maravilhoso quanto o da vovó, ouço Woman in Love com Barbra Streisand, porque eu sou dessas que gosta de uma cafonice requintada. 
Ainda assim, a TPM me invade como uma entidade maligna, fundindo e despejando fora o que sobrou em mim de qualquer vestígio de solidez. Meu desafortunado miolo virou uma pasta!
O cabelo é um fuá! E não há terapia ocupacional que tire o foco da pereba e da  cabelo ensebado
Afeta o vosso paladar também, fêmeas do meu Brasil? Porque o meu afeta.
Dá vontade de chorar sem motivo. 

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A felicidade é uma questão de olhar a coisa. A gente fica meio míope até determinada idade.

Os santos assim que largam os cueiros já saem por aí saltitantes de amor, paz no coração e entendimento da vida. 

A gente que é normal leva pau por anos e anos por déficit de atenção, "pobrema de espinhela caída", sentimentalismos existencialis, altas taxas de riqueza e de pobreza ou simples vagabundagem mesmo. Daí já viu: cisma em mentir, enganar, matar, invejar, roubar, falar mal do outro...

Quando tinha uns 15 anos era tristinha como um poço vazio, igualzinho aquele do filme da Samara. Carlos me falava, me mostrava que a janela estava logo ali na frente e eu só corria para o poço. Guardava um estoque generoso de choros e tristezas dentro daquele poço.

Agora que Carlos mora com os outros anjos eu consigo entender tudo o que ele dizia lá atrás entre sorrisos, cafezinhos e pão francês.

E, pensando bem... não é por nada não... sem querer alardear, cogito que Carlos ficaria bem-aventurado com o pequeno progresso de sua gatinha atrapalhada que vez por outra cai do muro no quintal do vizinho em cima do rabo daquele pitt bull cheio de dentes e com cara de poucos amigos.

Ainda no meu atrapalhamento, descobri duas coisas básicas bem legais: Não preciso realizar os Doze Trabalhos de Hércules e tenho a mais absoluta certeza de que Carlos me ouve, me vê, me sente daí da morada dos operários alados, incansáveis mestres de quem não teve o privilégio de nascer santo.
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Chama o grito da noite
E como dançam
Nus e embriagados
Animais e selvagens!
Tão bom vê-los assim
Com os olhos fechados!
Vem dançar comigo
Bosque nebuloso de mim
Se já não sonho,
Me arrebata daqui!
Toma de assalto o meu coração
Toda!
Faminta, sem amor, sem ardor...
Abram a porta
Deixem-me falar com o rei!
Perdendo o passo
Na pálida cidade
Os mortos no passeio público
Já nem dizem nada
Dói. Faz frio.
Só o instante do salto...
É preciso dormir...
E depois sonhar... 
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Num ímpeto de rebeldia, virei religiosa. Ser religiosa pra mim é o que há de mais rebelde, eu que nasci de mãe e pai ateus- se bem que papai, na reta final, bem que flertava com Thomas Merton e Krishnamurt! E eu que nunca fui batizada, cismei: tinha que ser! Arrumei um padrinho e duas madrinhas que são meus queridos amigos e fui lá, saltitante: batizar, crismar, fazer a primeira comunhão aos 24 anos quando morava num convento em Santa Tereza com uma agremiação de freiras fofas que me deixavam chegar tarde e ir ver meu teatrinho. Sofri bulyng, as invejosas, já que eu caí nas graças das freiras, foram dizer que eu fumava maconha no meu quartinho, o mais pobrezinho de todos. 

Tenho saudade de lá...Mas nem era maconha, era só o meu pacotinho de incenso. As invejosas tiveram que engolir seu veneninho todo. Nem sei onde foram parar, mas suspeito que estão sequinhas atrás de uma geladeira velha ao lado da barata com detefon e de uma pobre lagartixa que não tinha nada a ver com a história. Voilà! Quero conhecer melhor esse senhor subversivo chamado Jesus Cristo, quero conhecer alguns santos, conhecer a beleza dessa figura mítica que é Nossa Senhora. Mas o mais legal disso tudo é o exercício de doação, de me esvaziar, deixar de lado essa parada de me auto-referenciar o tempo todo pra ouvir o outro. Manja? Fazer o bem sem olhar a quem? Teatro épico? Teatro narrativo? Sem melodrama? Sem procurar saber do paradeiro da mocinha? Sem o eu lírico exprimindo os sentimentos do autor? Vamos fazer a revolução sim, mas sem arrancar nenhuma cabecinha na guilhotinha. Amemos as cabeças pobres, burguesas e aristocratas que ninguém sabe o dia de amanhã e esse papo de matar em nome da justiça já era, já foi e tudo seria menos triste se cabecinhas tão diferentes como a de Maria Antonieta e a de Danton ficassem mesmo em seus pescoços de gente. Ponto. Gente... A obra mais linda e perfeita de Deus! 

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Sabe o que eu não tenho saco: discurso esquemático, pronto, saído do forno. Tipo: a indústria do entretenimento é nociva, a televisão não tem nada que presta... todos esses discursos arrematados pelo senso comum. É como se a criatura humana: pobre, rico, preto, branco, amarelo, enfim, não tivesse livre arbítrio e tutano para desligar ou simplesmente zapear com aquela coisinha mágica chamada controle remoto aquela porcaria que estaria passando... (minha singela homenagem aos operadores de telemarketing) 

E mesmo que tudo esteja realmente uma merda para os padrões intelectualóides-novela, reality shows, aberrações, et que veio num sei da onde ajudar a construir as pirâmides do Egito, sit cons, etc, no meio desse caldeirão todo é possível vislumbrar um horizonte como a boa, velha e já ultrapassada série americana Sex and the City. Que coisa mais boa da conta de se ver! Aquilo é um verdadeiro manual da alma feminina e a protagonista é uma fofa com sua beleza "esteticamente mal resolvida" e fora dos padrões. Os diálogos de graça, valem muito mais que muita ida a consultório de psicanálise. O tema ontem era fé. E o namorado do Carrie Bradshaw por quem ela está completamente arriada nem mesmo a apresenta para a mãe e ainda diz: "tenha fé, quem sabe um dia eu te apresento pra minha mãe quando tiver certeza que vc é a mulher certa?" No dia seguinte ele aparece no seu carrão de motorista com passagens para o Caribe e a Carrie, tchan, termina com o gostosão de cabelo pintado. 

Claro que a personagem fica arrasada, então vem os pensamentos da escritora: "Chorei por uma semana, mas percebi que tenho fé, fé em mim. Pois tenho certeza que um dia vou conhecer um homem que não terá dúvidas de que eu sou a mulher certa." Uhú! As falas dessa personagem levantam a auto estima de qualquer mulher. Ponto para o velho, americano, enlatado, clichê e muito bom Sex and the City!

 PS: Estou dando um tempo nas saturnais de Baco. 
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Da porta para fora o tempo estava bom. Firmou. A chuva que caiu por três dias sem trégua agravara não só a gota, a artrose, a artrite reumatóide, assim como a otite, a sinusite, a bronquite.

Naquilo que sua vista fitava havia mesmo um brilho incomum: o verde na montanha, o branco nas pipocas saltando na parte interna da carrocinha; o negro no asfalto e no rabo do gato por entre as linhas horizontais acobreadas do portão eletrônico de metalon do vizinho enjoado; até o azul claro no céu e escuro na porta da birosca inquietavam a vista.

Nos caminho até à praça, sob um assente aconchego solar quase não sentia dor e caminhava sem precisão de parar a cada três passos para tossir ou respirar melhor.

Avistou o banco vazio, logo desanimou: levantar daquele banco seria tão arriscado quanto mortificante. E se tivesse uma zonzeira? Lá estava o enxame de rostos estranhos a lhe oferecer o braço e tirá-lo da passagem como uma coisa despencada congestionando a via pública. Pois sim!

De pé, encostou-se à figueira. Com os olhos fechados, esquadrinhava o esplendor daquela manhã. As narinas dilataram. Sorveu do jasmineiro, das jaqueiras, dos corpos suados que passavam, de toda a atmosfera candente da praça.

– “Manhã, tão bonita, manhã...” Expulsava a canção num solfejo baixinho e destoante. Cuidava pra não perder a voz. Continuamente projetava um ruído qualquer, embora o som abatido e agudo daquela voz decrépita não fosse capaz de ocultar entre a pausa dos silêncios o rigor da mocidade: de jamais confiar, de não se entregar, de só se valer.

Nesse dia de calor a alma era invadida por aquela estrangeira alegria. Justo agora que já não se importava com a solidão, o silêncio, os fantasmas da casa, vivendo com ajustada fleuma a expectativa da chegada da morte, num abandonar-se exemplar, sem alardes.

Tudo havia sido esquematizado com a mortuária de Zé Reinaldo, o sobrinho de Anchieta. Pulando a etapa do velório e do funeral, o traslado das cinzas até o Rio Carangola em Tombos ficaria a cargo do filho de Elvira, a dona da padaria. Já tinha um combinado por procuração e tudo com a mãe do rapaz, que ainda era menor de idade, mas tinha uma queda pela morte e realizaria o serviço com todo gosto. E agora isso. Essa vontade de viver!

- Será que encontro o paradeiro dela? Articulou o mais alto que pôde, puxando o ar com força, tentando se apoiar na figueira com as costas para não despencar no chão. Era oxigênio demais para um corpo tão combalido. Logo a vista escureceu trazendo um aroma de maresia. Desabou sob a terra áspera.

- À toa, Ifigênia fitava o mar. Longas horas... Abandonada sob o sol. Namoro com o mar. Possuída pela brisa marinha, todinha. À toa... Era feliz perto de toda aquela água...

Falou muito arrastado, querendo ar. Olhava fixo na direção da moça que apanhava sua cabeça alva entre as mãos. Ao seu redor, outros desconhecidos:

- Esse é o capitão?

- Não tinha morrido?

- Morreu não.

- Parece que se esqueceram dele...

-Melhor mandar pro hospital. Ajuda aqui a levantar!

- Não! Pensou que gritava, mas a voz era um fio.

- Preciso encontrar uma moça. Ifigênia. Disse que me esperava. Que quando voltasse, procurasse por ela. Nunca voltei... A guerra é uma coisa muito feia. Fui-me embora em novembro de 1944. A gente usava o jornal socado dentro do coturno, dava frio nos ossos. Era eu e Vicente. Companheiro bom! Usava um perfume adamado, presente de Rosa, a prometida. Dois soldados rasos. Da infantaria, vejam bem! Deixei Ifigênia com o mar que ela tanto adorava. Ifigênia me deu um bentinho milagroso feito pela mãe dela que era muito religiosa, metida a beata. Deu-me também o retrato dela de maiô. Fui-me embora pra nunca mais voltar...

No meio do cardume de curiosos uma menina muito magrinha de vestido vermelho ralhou:

- Fugiu de casa de novo, danado?! E sem comer! Vem! Mandaram te buscar.

- Conheço você! É a menina que roubou minha baioneta enquanto eu cochilava. Estou definitivamente à mercê do inimigo agora. Percebem a gravidade da coisa?

- Dá aqui tua mão. Ifigênia mandou te buscar.

- Quem é Ifigênia?

A menina piscou o olho, malandrinha: - Ifigênia é uma dama que tem poderes extraordinários. Com suas mãos de fada ela cura as pessoas doentes do corpo e da alma. Vem!

O capitão foi andando até o mar de braço dado com a menina de vestido vermelho que era só cuidados e doçuras com ele.

- Tá aqui o fujão, vovó. Agora eu vou nadar.

- Hoje pensei que o senhor não voltava mais! É só o tempo ficar bom que se embrenha no meio da multidão. E do banho de sol? Se esqueceu foi?

Ifigênia era uma senhora magra como a neta Clarinha, tinha os cabelos prateados quase na altura dos ombros, linhas delicadas e olhos verdes grandes, agateados, brilhantes. Era bonita. O capitão olhava perplexo:

-Ifigênia? Você me esperou mesmo. Viu que trouxe de volta o seu retrato de maiô? O bentinho não sei onde foi parar...

-Não tem importância não. Lembrou de mim? Mesmo assim tão velha?

- A senhora ainda é a mais formosa de todas.

- Dá tua mão. Ih, tem que cortar essas unhas!

Ifigênia olhou bem fundo nos olhos pequenos e opacos do capitão. Segurou sua cabeça entre as mãos, passou os dedos delicadamente sobre o seu rosto, tracejando o contorno das sobrancelhas, o escarpado do nariz aquilino, a boca ainda bem feita que súbito beijou com afobação para logo repetir o gesto com toda a delicadeza:

– Amanhã, vamos a Paquetá! Disse Ifigênia num rompante antes de se virar para admirar outra vez o mar. Ainda sem disposição para sorrir, o velho combatente encheu o pulmão de ar num suspiro serenado de quem finalmente chegara a uma paragem segura e acolhedora. 
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Nas minhas fantasias invento habituais visitas aos cenários das gestas de cavalaria: pântanos, bosques, lagos laureados por densas brumas que desafiam o medo. Atraída pelo fantástico, pela beleza e por tudo aquilo que se encontra além da existência prosaica.

Puck, Ariel, Oberon, Titânia, ninfas e outros artífices invisíveis perceberam meu estado lastimoso, lamuriento e enfadado. Propuseram uma assembléia com Dionísio e as Bacantes, que são os manda chuva das florestas, e se prontificaram a urdir um poderoso estratagema para que eu pudesse conhecer um cavaleiro de verdade, já que a oferta de cavaleiros andantes havia escasseado com a mão de obra barata de sapos verruguentos e com pouco assunto além do “urebe, urebe” habitual. Coisas do capitalismo, enfim...

Só sei que as criaturas invisíveis e zombeteiras me fizeram tomar um tal mel de rosmaninho, conservado na charneca de uma mandingueira, lá pelas bandas da estação de metrô Picoas na cidade de Lisboa.

Quando dei por mim, voava dentro do bico de uma cegonha ao lado de centenas de bebês delivery. A ave estava avexada com entregas na Groelândia, na África Ocidental, no Paquistão, na Grécia e na China, onde pagavam um dinheirão por um recém-nascido extra.

E eu nem pude apreciar Lisboa se abrindo em primavera já que a cegonha teve a ousadia descabida de me jogar pela chaminé de um tal Magnetic, rasgando o meu vestido de lantejoulas que se transformou numa sainha curta de piriguete.

Foi neste lugar, no dia 25 de abril de 2008, meio descabelada e com a saia curta, que conheci o Alberto Artur Rosmaninho. Fingiu que era um simples cidadão flanando pela cidade, mas quando adentrou o recinto bem que vi a capa de arminho, o cetro e a coroa que ele guardou numa sacolinha horrorosa amarela.

Agora quando eu fico triste ele não deixa. Atravesso portas, subo muros altos, caio, levanto, calo, grito, mas sempre volto pra dentro do seu manto azul, cálido, perfumado e adornado por um céu de pirilampos.
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Perfídia
Perfídia “Sou lúcida na minha loucura, permanente na minha inconstância, inquieta na minha comodidade. Amo mais do que posso e por medo, sempre menos do que sou capaz”.

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By Luzie Lima ♡ - X